Sociedade Princesina de Ciências Astronômicas ®

segunda-feira, 14 de junho de 2010

[Sky & Telescope] O Dia que eu descobri...

O Dia que eu descobri...
A astronomia amadora é um campo abundante com a possibilidade da descoberta.


Quando criança, eu sonhava em algum dia fazer uma grande descoberta celestial – quem sabe trazendo à luz um novo mundo entre as estrelas. Aos 25 anos, com os meus sonhos já realizados, eu percebi que a mais importante de todas as minhas descobertas foi aquela que eu fiz quando ainda era um adolescente, sozinho com um telescópio no quintal de casa.

O Dia que eu descobri uma GALÁXIA – Eu tinha 17 anos, lutando para conseguir apontar um telescópio difícil de manejar. O tubo de metal estava congelante contra o meu rosto enquanto eu olhava pela buscadora. Com meu olho esquerdo estrábico, tentei fixar o olhar através do velho newtoniano 100mm que fora emprestado apenas para o fim de semana. Eu nunca havia antes observado através de um telescópio de verdade, mas não havia dúvida do que eu havia encontrado – um disco difuso de brilho esbranquiçado, mais de 100 bilhões de estrelas em uma única visão – a Galáxia de Andrômeda. Como um momento sagrado em uma catedral lotada de pessoas, a experiência me pareceu profundamente universal, ainda que completamente pessoal. Fótons de luz estiveram em uma viagem de apenas um sentido, para depois de mais de 2 milhões de anos chegar a um único destino: meu olho. Naquele momento, eu ganhei uma compreensão íntima do quão pequeno eu sou em nosso vasto universo.

O Dia que eu descobri um ASTEROIDE – Eu estava com frio, cansado, e sozinho; a sina de um estudante de Física relegado ao Observatório do Calvin College para uma jornada de observação que iria durar a noite toda. Era um “senior project”*, a culminação dos meus anos de colégio em preparação para o trabalho de graduação em astronomia. O telescópio computadorizado de 400mm achou seu alvo rápido, acompanhando um asteroide do Cinturão de Asteroides enquanto ele se movia lentamente através do céu. Uma câmera CCD estava acoplada ao telescópio, coletando fótons de forma muito superior à forma que meu olho jamais poderia. Depois de seis horas, eu tinha aproximadamente 40 imagens do asteroide 3091, mais do que o suficiente para completar minha tese de graduação. Em uma animação das imagens da noite, o asteroide brilhante aparecia cada vez mais próximo no campo. Lá, no canto inferior, uma mancha difusa de luz, como um corpúsculo de poeira, movia-se vagarosamente passando pelas estrelas. Meu coração pulsou de forma irregular enquanto eu imaginava, “Poderia este ser um novo asteroide?”. Três dias depois, uma mensagem do Minor Planet Center me comunicou que o objeto difuso era mesmo um novo asteroide, VDH001 K03R11A. Era meu; Eu encontrei ele, Eu! Mas, verdade seja dita, o CCD mereceu o crédito.

O Dia que eu descobri um EXOPLANETA – Como um estudante de graduação de 22 anos, trabalhando em uma sala de controle confortável e bem aclimatada, eu sentei com dois outros graduandos atrás de oito monitores. No outro lado de uma densa parede de ferro, o telescópio Kitt Peak de 2,1 metros moveu-se vagarosamente para o seu próximo alvo. Uma série de aparentemente idênticos espectros em preto-e-branco apareceu em uma tela. Eu dificilmente sequer olhava para as imagens – apenas mais uma das 30 estrelas que nós observamos naquela mesma noite. Não houve “momento Eureca”, nem pulsos irregulares em nossos corações, mas surgiu um consenso cada vez maior entre nosso grupo de pesquisa de que a curva sinusoidal de velocidade radial de HD 102195 era consistente com um planeta com uma massa semelhante à de Júpiter orbitando a estrela a cada 4 dias. A descoberta foi inevitável, um produto de nossa busca cuidadosamente planejada. Quando nós publicamos nossa descoberta no “Astrophysical Journal”, meu nome era o sétimo na lista de autores.

Apenas 440 exoplanetas foram descobertos pela humanidade, e talvez apenas 1200 pessoas possam dizer que elas próprias descobriram um asteroide. Eu certamente sinto orgulho destas conquistas. Mas naquela noite anos atrás, sozinho em meu quintal com um telescópio velho e usado, eu fiz uma descoberta muito maior – uma descoberta que me tornou humilde.

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Situado em Michigan, Andrew Vanden Heuvel é diretor-fundador do AGL Initiatives, uma organização com o objetivo de desenvolver recursos inovadores para o ensino das ciências espaciais.

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* Nota do tradutor: “Senior project” é um programa educacional criado para desafiar os estudantes do último ano da High School (equivalente no Brasil ao Ensino Médio) ou que estejam cursando uma faculdade ou universidade, principalmente no Canadá e nos EUA mas também em outros países que adotam o modelo de ensino anglo-saxão. Os estudantes escolhem um tema pelo qual têm interesse e desenvolvem um projeto de pesquisa.

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Traduzido por Cristopher Hans Margraf – SPCA
Original: Andrew Vanden Heuvel, revista Sky & Telescope, julho de 2010.

Um comentário:

  1. Excelente artigo e excelente tradução! Parabéns Cristopher.

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